segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Casamento do preconceito



Actualmente, fala-se do casamento entre homossexuais, quando na verdade as propostas baseiam-se em “casamento entre pessoas do mesmo sexo”, com excepção de alguns partidos da extrema-esquerda que escrevem: “casamento entre homossexuais”.

Antes de mais, sou católico, mas tal não invalida que eu seja alguém sem preconceitos e defensor de que todos devem ter o mesmos direitos e deveres na nossa sociedade. Contudo, acho que ideologicamente o “casamento” é e trata-se da “união” entre duas pessoas de sexo diferente, algo que adveio da religião… E há costumes que devem permanecer… No entanto, não me choca que o contrato, com o título de casamento, possa ser celebrado entre duas pessoas do mesmo sexo, pois estas poderão ter acesso vantagens fiscais e benefícios no acesso a crédito e outras vantagens. Pode parecer antagónico, mas não o é.

Ora pensemos num caso simples, duas senhoras idosas que vivem juntas a vida inteira, e uma delas, por obra do destino, tem a fatalidade de falecer, e a outra que partilhou a sua vida com ela não tem direito a nada, porque nunca celebraram um único contrato, pois não pensaram em casar, já que tiveram os seus namorados… Assim, como a casa estava em nome da outra, esta senhora poderia ser despejada… Então? Como resolver estas situações? Um simples contrato poderia ser a solução, estou certo?!

Conquanto, se pensarmos nesta questão fracturante, porque enquanto poder haver vantagens económicas, a grande maioria dos defensores acha que a homofobia vai acabar. Essa questão é falsa, por haver casamentos ou contratos entre pessoas do mesmo sexo, a homofobia não acabará, o estigma também não. E é isso que os defensores do casamento entre pessoas do mesmo sexo não querem entender.

Assim, a minha posição é simples, não sou a favor, nem contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, sou a favor da liberdade de cada cidadão. Todavia, para resolver a problemática de fundo e a verdadeira questão que é acabar com a homofobia, sou a favor de campanhas de marketing, campanhas de sensibilização e mobilização… E não aquelas marchas que só mancham os homossexuais e exponenciam a homofobia.

Quanto à adopção de crianças por casais do mesmo sexo, será que a lei faz mesmo sentido? Uma pessoa homossexual se não estiver casada pode adoptar, mas caso o casamento seja aprovado, não poderá adoptar? Que sentido tem isto? Será que uma criança está melhor num lar? Nas ruas? Será que alguém disponível a dar amor deve ser discriminado por isso? Porque não fazer campanhas para acabar com homofobia?

Eu confesso, eu também sofro de homofobia, muitas vezes sou homofóbico, algo que está enraizado na nossa sociedade, mas será que com as campanhas tudo isto não poderia mudar?!

O casamento não finaliza e enterra o preconceito, nem o vai amenizar… Só irá adiar! Campanhas e campanhas é isso que procura-se!

domingo, 13 de Dezembro de 2009

“Viagens na minha Terra”*



A ideia surgiu há muito, muito tempo, quando um meu professor de História nos fazia viajar por terras de Portugal Continental, digressionando sobre as peripécias que vivera com os colegas de faculdade. Eram histórias de paisagens extasiantes, aldeias perdidas na serra com tasquinhas modestas que serviam autênticos banquetes de enchidos regionais por tuta-e-meia e cidades tristonhas com arquitectura dissonante. Também eu queria, ao entrar no Ensino Superior, juntar um grupo de amigos, arranjar um carro e conhecer esse lindo País de Norte a Sul. “Todos os fins-de-semana vou conhecer uma terriola diferente” dizia eu para com os meus botões.

Só quem passa pela vida de estudante universitário se apercebe da impraticabilidade destes planos. Não querendo desanimar ninguém, são poucos os estudantes que têm o espírito aventureiro do estudante Madeirense. Fim-de-semana? É para gastar meia centena de euros em seis horas de viagem para ver os papás, trazer roupa lavada e engomada e tupperwares cheios de comida caseira. Há muito pouco espaço para se alargarem os horizontes culturais. Por outro lado, não tarda começarem os trabalhos, projectos e frequências que nos obrigam a cumprir longas horas de estudo. Outro aspecto importante é o cansaço, que nos assola todos com o acumular de uma semana de aulas ou estágios, restando pouca vontade para o lazer extenuante. Porque também o dinheiro a todos escasseia – com ou sem bolsas de estudo, vivendo em cidades com custo de vida mais ou menos elevado –, facilmente se entende que uma viagem representa um ópus financeiro extra, com os bilhetes de comboio, autocarro ou a gasolina, o alojamento e as refeições fora de casa. E depois se investir todo este esforço e todo este dinheiro em planear um fim-de-semana fantástico, ainda nos arriscamos – principalmente nos meses invernosos – a apanhar um grande pé-d’água que arrasta consigo todas as nossas intenções.

Mas eis que num ou outro fim-de-semana surge um convite irrecusável, uma feira de interesse, uma promoção aliciante. E aí não vale a pena quedarmo-nos sorumbáticos frente ao portátil, sem estudar, sem sair, sem nos divertirmos. Mais vale entrar na onda e deixarmo-nos levar pela loucura de fazer as malas, delinear os mapas, reler sobre pontos históricos de interesse e transportarmo-nos para um lugar e uma realidade diferentes. Podemos ir descobrir os segredos dos Templários no Castelo de Almourol, cirandar por Elvas (com Espanha ali ao lado) com um pacote de capitólios na mão, ir à Queima de Coimbra e descobrir – depois da manhã de ressaca – o quão belo é o claustro da Sé Velha ou ainda ficar por Lisboa, apanhar o eléctrico E28 e ver o Tejo a partir de outro ângulo lá do cimo do Panteão Nacional. São infinitas as possibilidades!

Atrevo-me, até, a dizer que é a inércia – e não a solidão – que nos mata nesta cidade fantástica que é Lisboa. Ela é austera e fria para os caloiros que ainda não encontraram as suas novas rotinas e são esses que podem disfrutar de um fim-de-semana longe das ruas vazias da capital. Se estamos pelo Continente durante 3 ou 4 ou até 6 anos, porque não explorar este rectângulo maravilhoso à beira-mar plantado, conhecendo-lhe a História, as tradições e a Gastronomia? Porque não poder pontuar muitos pontos do nosso mapa como caricaturas das nossas viagens? Porque não aproveitar a nossa nova situação geográfica para nos servir de alavanca cultural e nos facultar novas experiências de vida?

*Título original do livro de Almeida Garrett, publicado em 1846, no qual se mistura a descrição da viagem real – efectuada pelo narrador entre Lisboa e Santarém – e a trama novelesca em torno das personagens principais. Apesar de ser classificada como obra romantista, toda ela se reveste de inovação pela capacidade que o autor teve de reinventar a sua escrita, fugindo ao discurso da pesada tradição clássica e misturando estilos e linguagens que aproximaram a sua obra aos leitores. Disponível na Biblioteca Digital da Porto Editora em: http://web.portoeditora.pt/bdigital/pdf/NTSITE99_ViagMinhaTerra.pdf

Convidada: Helena Gouveia
(estudante de Medicina em Lisboa)


sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

É já amanhã!

Reserva o teu lugar:

terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

O centralismo...


Eu vivo na Grande Lisboa há 5 anos, aterrei no aeroporto de Lisboa em 2004 e desde então tenho procurado conhecer a cultura e ambientar-me ao máximo, mas não vou escrever acerca da minha vida, mas sim falar do centralismo que existe em Lisboa.

Em Lisboa existe tudo o que não existe no país, o país para os lisboetas resume-se a Lisboa, para lá do Tejo já parece ser uma província marroquina… Entrando na A1 e passando Sacavém já estamos em distrito espanhol… Indo na A5 para Cascais já estamos a ir para o “campo” e apanhando o IC19 estamos a chegar a Sintra, mas para um lisboeta é mais “campo” com um ar aprazível e pouco mais… Para um lisboeta, Portugal termina quando a cidade de Lisboa termina…

A verdade é que o centralismo que Portugal vive deve-se a todos, onde me incluo… Porque será que tudo tem que acontecer em Lisboa? Será complicado as pessoas deslocarem-se para o interior, para a “província” ver um concerto, presenciar um acontecimento… Como é bom ir à Golegã à feira do Cavalo, como é bom ir a Torres Vedras ao Carnaval, como é bom ir a Óbidos à feira do chocolate, como é bom ir ao Porto ao São João e levar com um martelinho, como é revitalizante ir a Fátima a 13 de Maio, como é bom ir ao Algarve ver o rali, como é bom ir a todas as zonas do país para uma festividade qualquer… Há acontecimentos que se identificam com os lugares e lugares que identificam-se com os acontecimentos…

Contudo, assiste-se que o centralismo tudo quer, o centralismo quer o Galo de Barcelos, o centralismo quer os cavalos da Golegã, o centralismo quer os martelos do São João… Lisboa quer ser, só Lisboa, Portugal… Mas não é e nunca será… Isto pode ser parecer antagónico, pois vivo em Lisboa e deveria quer ter mais acontecimentos aqui, mas não é… E porquê?

Eu acho que tudo deve estar repartido pelo país, e manter… Repare-se este ano Lisboa teve o inicio da Volta a Portugal de bicicleta, de Lisboa partiu o rali Lisboa – Dakar, Lisboa teve a expo 98, Lisboa teve o tratado… Portugal não é só Lisboa, nem Lisboa é só Portugal… Portugal somos todos… Como li por aí, Lisboa tem os acontecimentos e o centralismo e o resto da país paga a factura?

Comecei por escrever este texto, principalmente porque revoltou-me como uma vez mais Lisboa tenta “roubar” os “aviões” do Porto, o Redbull Air Race. Será que faz sentido? Já não chega as actividades culturais estarem centradas em Lisboa… Ainda é preciso ir às outras cidades do mesmo país, “roubar” certas actividades que já são tradições e que move com a vida da região… Por isso, repito: repudio a atitude dos grupos económicos em querer transferir para Lisboa as actividades de outras cidades…

Cito de cor as palavras (não tenho a certeza se eram mesmo estas, mas a ideia era essa) do Dr. Pedro Santana Lopes, aquando a sua primeira candidatura à CML – “Lisboa somos todos”, mas o país não é só Lisboa! Há Portugal além de Lisboa!

NESD-Lx – Juntos Além Fronteiras

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

Há mar e mar, há ir e voltar...

Fonte: Olhares

Cheguei a Lisboa, em Setembro de 1997, para cursar Direito. Estava longe, visualmente falando, de ser um típico aprendiz de leis, pois, à altura, o meu longo cabelo e a roupa negra denunciavam-me. Sendo um aluno da Universidade Católica, conhecida pela sua suposta disciplina rígida, esta premissa ainda assumia mais acuidade e revelava alguma preocupação, principalmente para os meus pais. No início, e com uma desconfiança natural, não me embrenhei imenso na vida académica, embora tenha-me vingado desde o início nas noites de boémia, deambulando pelos bares das ruas tortuosas do Bairro Alto, em especial os mais alternativos como o “Escorpião” ou o “Grog's, com uma incursão obrigatória pela “Juke Box”, local de culto da cena nocturna lisboeta
(desde os anos 80) para quem cultivava o Metal ou o Gótico como eu.

Também, e fruto de progressivamente ir possuindo um grupo de amigos cada vez ecléctico e de gostos muito diversificados entre si, andei pelas “Janelas Verdes”, e em especial por esse magnífico antro de diversão, chamado “Plateau”, que ainda hoje faço questão de mergulhar sempre que me desloco a Lisboa. A licenciatura entretanto prosseguia a um ritmo normal, e entre ter como professores quatro ex-ministros de Salazar e Marcelo Caetano e outros tantos secretários, para além de endurecer e perder a vergonha nos exames orais obrigatórios, o curso e o esforço financeiro dos meus pais ia tomando forma.

Por outro lado, Lisboa foi a terra das paixões fugazes e de um amor permanente. Arena onde foram derramadas lágrimas, tanto de alegria, como de sofrimento. Páginas onde foram escritas poesias perdidas e cartas de amor, no meio da imensidão e panóplia dos testes, trabalhos e apresentações universitárias. Foi o campo onde foram lavradas amizades, de norte a sul do país, e que me orgulho de perdurarem até hoje. Tive a sorte de conhecer a Lisboa profunda dos seus bairros típicos, e das suas largas avenidas cosmopolitas. Vivi em três apartamentos distintos e com pessoas completamente dispares entre si, onde tudo, quase sempre correu bem. Em Lisboa deixei a adolescência para trás, e fiz-me homem. Sinto, até hoje, que um pedaço de mim teimosamente permaneceu na capital, e que igualmente trouxe algo de “Olisipo” comigo...E essa nostalgia, que me coloca um franco sorriso na face, acompanha-me orgulhosamente, à semelhança de uma qualquer bela recordação de um filme de Giuseppe Tornatore.

No aeroporto da Portela, num dia sufocante do fim de Julho de 2003, o rapaz de cabelo longo e roupa escura que denunciava as suas preferências musicais, tinha dado lugar a um jovem adulto com a aparência mais normal do mundo, de t-shirt e calças de ganga gastas, cabelo curto e atafulhado de malas. Esse mesmo rapaz sentiu repentinamente uma tristeza momentânea. Do alto das escadas rolantes, onde se ia dar ao controlo dos bilhetes, parou. Olhou para trás e fitou por momentos os corredores do andar inferior. Apercebeu-se que ansiava por alguém, algo, talvez a própria cidade, corresse para os seus braços e implorasse para que ele não partisse. Mas a decisão, a cruel escolha entre dois amores (e algo mais) estava tomada. Madeira, um dos teus filhos à casa torna, e quão mãe estremada consolaste-me as lágrimas derramadas por ter deixado a paixão e a amante de sempre para trás.

Em 6 anos, a amada ilha tinha mudado imenso, e em muitas coisas para melhor. Tudo parecia diferente. As ruas, os hábitos, as pessoas...Afinal, tudo continuava, de certa forma, na mesma. O tempo e as diferentes responsabilidades é que tiveram por mister conferir uma nova perspectiva ao dia-a-dia...Em sentido idêntico, mas inverso, senti-me de igual forma em 2006, quando me pós-graduei em Contencioso Administrativo e Fiscal. Lisboa continuava, quão fortaleza de Massada, a ser a depositária de algumas minhas mais fiéis emoções. Coisa estranha o tempo...já dizia o grande Miguel Torga que era “definição da angústia; Pudesse ao menos eu agrilhoar-te ao coração pulsátil dum poema! Era o devir eterno em harmonia.”

Nota: Em jeito de à parte, saúdo esta interessantíssima e relevante iniciativa do amigo Eduardo e do NESD,e faço votos para que os estudantes e os madeirenses que, regra geral, se encontram em Lisboa a labutar e a residir, alcancem os maiores sucessos e felicidade!

Convidado: Jorge Soares
(jurista, ex-estudante em Lisboa)

domingo, 6 de Dezembro de 2009

Jantar de Natal Madeirense em Lisboa


Está a se aproximar o Natal e o Núcleo de Estudantes Social-Democratas de Lisboa tem o prazer de vos convidar a participar no Jantar de Natal de Madeirenses em Lisboa. Numa época tão especial como esta, em que o espírito de amizade e fraternidade está tão presente, achamos importante a realização de uma reunião entre madeirenses a estudar, a trabalhar ou até de férias em Lisboa e nada melhor que um jantar de natal de madeirenses.

Não podemos encarar este jantar como um jantar partidário, porque os madeirenses não podem estar separados e/ou divididos em Lisboa por cores partidárias. Os madeirenses deverão estar unidos e juntos, sejamos do PSD, do PS, BE, CDS… Por isso, lanço o apelo para que todos, independentemente da cor partidária, a estarem presentes na próxima sexta-feira (11 de Dezembro de 2009) no Jantar de Madeirenses no restaurante Orange em Santos.

É importante que aquela antiga mística e união de Madeirenses regresse em Lisboa, e isso terá que partir de ti a estares presente no Jantar de Madeirenses…

Para participares no jantar basta responderes a esta mensagem electrónica e/ou enviar uma mensagem electrónica para o nesd.lx@gmail.com

Espero poder contar com a tua presença. O jantar tem o preço simbólico de 12 euros e o menu é composto pelo seguinte:

Couvert
- (pão, manteigas, azeitonas, patés)
Bebidas à discrição
- Cerveja (imperial)
- Cola e Ice Tea
Pratos à escolha
- Lombo de Porco Orange
- Strognoff
- Carne Porco à Alentejana
- Bacalhau à Brás
- Pratos Vegetarianos
Café

Recapitulando:
  • Jantar Madeirense no Restaurante Orange em Santos (informações do restaurante em http://www.orange-ba.com/)
  • Valor simbólico de 12 euros
  • Sexta-feira 11 de Dezembro de 2009-12-06
  • Hora: 21 horas
  • Reserva do lugar em: nesd.lx@gmail.com


Qualquer dúvida contacta-nos!

sábado, 5 de Dezembro de 2009

Não se regressa a um lugar de onde nunca se partiu!


Contra a minha racionalidade religiosa, convivo, desde sempre, com um certo misticismo bretão, druídico, que me permite reconhecer o espírito da terra. Por isso, a Madeira para mim não é apenas uma ilha, não é apenas um local, não é uma simples referência geográfica. A Madeira que vive em mim tem uma imagem antropomórfica, tem um espírito, uma alma e uma consciência. Por ela sou uma espécie de Átis que ama e vive para a sua deusa Cibele. Submeto-me a ela com a pequenez de um humano, ante a grandeza da divindade. A Madeira é minha utopia, é a representação terrena do paraíso, é o meu delírio onírico, é a minha maior paixão.

Por tudo isto sinto que nunca saí da Madeira. É verdade que estive - e, por mais um acaso dos destino, permaneço – deslocado. Mas nunca esse deslocamento representou uma ausência. Não teria sido possível. Não para mim.

E foi assim que dei comigo em Coimbra, com a esperança e optimismo que se prendem ao olhar dos 19 anos e a Madeira agarrada à voz. Não, não era apenas o sotaque que carregava e carrego comigo, como se fosse o meu bem mais precioso, que denunciava o sangue ilhéu. Quem então me conheceu – aliás, tal como agora – sabia – e sabe! – que, para mim, ser madeirense é mais do que ser natural da ilha: é um estado de alma, é a forma mais elevada de ser eu próprio.

A sombra da Madeira que o Sol do ocaso projecta sobre o Atlântico – e que suporta a lenda da Ilha de Arguim – acompanha-me desde então e não permite qualquer dúvida acerca da minha origem ou do meu destino. Quem me conhecia sabia que não havia concorrência possível, que a Madeira estava-me inscrita no sangue.

Se Coimbra contou? Se consegui libertar-me das inevitáveis amarras que nos podem atrofiar? Claro que sim! A veneração que dedico à Madeira jamais poderia ser motivo de empobrecimento pessoal, jamais poderia ser causadora de perda ou dano. Para além de que, por vezes, é preciso sair para que estejamos dentro. É preciso que nos transformemos em um outro, para que sejamos mais radicalmente nós próprios. E esta aprendizagem foi realizada. As oportunidades não foram desperdiçadas. Cresci com os outros, apreendi a grandiosidade do que é diferente. E isso apenas foi possível porque me desloquei e é a razão pela qual preconizo a saída da Ilha, como aprendizagem. É imperioso que saiamos, que nos permitamos ser desvelados perante olhares diversos.

Quando, em 2001, regressei ao Funchal, senti ter regressado a casa. Afinal, ao contrário do mito grego, não apenas o percurso era importante. Ítaca também o era, como meta, como objectivo primordial.

É verdade que o sopé do Pico da Cruz já não era o mesmo. O amontoado de bananeiras tinha sido substituído por uma floresta de betão. Os amigos já lá não estavam – não como os imaginávamos.

Mas o cheiro que se entranha em nós, a maresia impregnada de humidade que se cola, o sol derramado sobre o mar quando se esconde atrás do Cabo Girão e, sempre e acima de tudo, o horizonte, mantinham-se inalterados. E se perdia alguma coisa em termos de identificação – intelectual, acima de tudo! -, a verdade é que essa perda era compensada pela mesma matriz histórica, geográfica e cultural, que partilhava com quem então me rodeou. O ventre de onde nascemos era o mesmo. E esses são laços poderosos.

Porque o que me caracteriza não é apenas a minha formação; não é apenas a minha profissão; não são apenas os meus hóbis, ou as leituras que fiz. Não! O que eu sou é o sangue que me corre nas veias e que rasga todo o corpo. E esse confunde-se com a neblina que cobre o Pico do Areeiro, com os ribeiros que recortam a Madeira e com as levadas que a esventram. Sou o olhar que se perde na majestade das montanhas, ou na imensidão do mar.


Se foi fácil a transição? Se regressei diferente? Se tinha outras aspirações? Se sentia que a as fronteiras naturais da ilha me poderia aprisionar? Tudo isso é verdade e tudo isso é mentira. Porque, como disse, não me parece ser possível regressar a algum lugar de onde nunca se partiu. E eu, verdadeiramente, sinto que nunca parti!

Convidado: Sancho Gomes
(gestor de projectos educativos, ex-estudante em Coimbra)

Seguidores

Comentários recentes

  ©Template by Dicas Blogger.

TOPO